segunda-feira, 4 de junho de 2012

Ainda sobre separação

A crônica do domingo passado, A separação como um ato de amor, resultou em inúmeros depoimentos de leitores. Muitas pessoas me escreveram dizendo que adorariam ter se separado de uma maneira cordial, não violenta, mas que infelizmente não havia sido assim com eles. Outros disseram que conseguiram chegar a um consenso e manter a amizade e o afeto, tal qual foi descrito no texto. Outros ainda disseram que vivem casados e felizes há quarenta anos e esperam jamais precisar passar por um divórcio. O que importa é que em todos os e-mails encontrei doçura e boa vontade para viver relações mais civilizadas, que possibilitem uma ruptura menos traumática, no caso de um dia ela ser necessária.
Estava tudo assim cor-de-rosa quando entrou o e-mail de uma mulher de uns trinta anos dizendo que separação amigável é conversa pra boi dormir. Ex-marido e ex-mulher é sempre uma pedra no sapato. Que o máximo que podemos fazer é tolerá-lo em situações em que não haja outra saída. Era um e-mail furioso e, por isso mesmo, engraçado, o que me fez lembrar imediatamente de um livro que acaba de ser lançado e que, em vez da visão poética e afetiva do Nas tuas mãos, de Inês Pedrosa, que me serviu de gancho para a primeira crônica, traz uma visão mais ácida do assunto. Ácida, hilária e também muito verdadeira, porque não existe uma verdade única sobre o tema. O título: O diabo que te carregue!, da ótima Stella Florence.
Stella não esconde de ninguém que noventa por cento do que relata no livro aconteceu com ela. Então misture um depoimento biográfico com pitadas de um humor selvagem e um texto super bem escrito e eis uma obra que será excelente companhia para quem estiver passando pelo desgaste de uma separação, ou já passou, ou desconfia de que vai passar. Riso e reflexão: tem dobradinha melhor para quando se está arrancando os cabelos e vivenciando um apocalipse now?
Em O diabo que te carregue!, o casal não acaba junto, óbvio. Mas apesar de todos os destemperos, mágoas, acessos de fúria, solidão, discussões sobre grana, sobre filhos, raivas contidas e raivas extrapoladas, nota-se que o ex de Stella sobreviveu muito bem ao cataclismo, tanto que é ele quem escreve o prefácio. É ou não é um mundo civilizado?
Só não é mais civilizado porque a maioria das pessoas ainda se rende muito facilmente ao script que nos entregam no berço, sem bolar outras formas de ser feliz - e até outras formas de ser infeliz. Se todo mundo diz que separação é, obrigatoriamente, um colapso de consequências trágicas, lá vamos nós nos comportar como se estivéssemos vivendo as tais consequências trágicas, quando talvez estejamos apenas temendo a liberdade á qual nos desacostumamos, mais nada.
Claro que toda separação é um angu, mas há maneiras e maneiras de se lidar com ela. Uns aceitam a tristeza como algo inevitável, temporário e enriquecedor, outros transformam sua dor em catarse coletiva onde o humor e a inteligência vencem no final. Qual desses roteiros é mais realista? Eu diria que tudo é real, transitório e reversível. Assim como um casamento pode não dar certo. Não é uma ideia alentadora? Gente, nossa separação não deu certo! Volta tudo como era antes.
Melhor do que se preocupar com um happy end ou com um unhappy end é desejar que tudo tenha uma continuidade, estejamos sós ou acompanhados. O livro da Stella é mais ou menos isto: Uma caminhada cheia de contratempos até descobrir com alívio, lá no fim, que não há fim, a vida segue.


Por: Matha Medeiros 

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