Hoje ninguém confia, é verbo em desuso.
Você não confia em desconhecidos e também em muitos dos seus conhecidos.
Não confia que irão lhe ajudar, não confia que irão chegar na hora
marcada, não confia os seus segredos, não confia seu dinheiro. Dormimos
com um olho fechado e o outro aberto, sempre alertas, feito escoteiros. O
lobo pode estar a seu lado, vestindo a tal pele de cordeiro.
Então,
de repente, o que alguém pede a você? Que diga sim. Que escute
atentamente a música. Que apoie seus braços em outro corpo. Que se deixe
conduzir. Que não tenha vergonha. Que libere seus movimentos. Que se
entregue.
Qualquer um pode dançar sozinho. Aliás, deve. Meia
hora por dia, quando ninguém estiver olhando, ocupe a sala, aumente o
som e esqueça os vizinhos. Mas dançar com outra pessoa, formando um par,
é um ritual que exige uma espécie diferente de sintonia. Olhos nos
olhos, acerto de ritmo. Hora de confiar no que o parceiro está propondo,
confiar que será possível acompanhá-lo, confiar que não se está sendo
ridículo nem submisso, está-se apenas criando uma forma diferente e
mágica de convivência. Ouvi uma coisa linda ao sair do cinema: se os
casais, hoje, dedicassem um tempinho para dançar juntos, mesmo em casa -
ou principalmente em casa - , muitas discussões seriam poupadas. É uma
espécie de conexão silenciosa, de pacto, um outro jeito de fazer amor.
Dançar é tão bom que nem precisava servir pra nada. Mas serve.
Por: Martha Medeiros
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