No último domingo, publiquei no caderno ZH Donna uma crônica fantasiosa
em que eu imaginava como seria bom parar de pensar por uns dias, para
dar um descanso pro cérebro. Os leitores aprovaram a idéia, mas os dias
passaram e é hora de voltar a pensar. Proponho dois assuntos para dar
uma acordada nos nossos neurônios. Primeiro: soube que dois
desempregados arrancaram, anteontem, 19 placas de sinalização da RS-331,
que liga Viadutos a Gaurama, no norte do Estado. O objetivo? "Só para
ver o que acontece", responderam eles. Vou dizer a eles o que acontece,
dando o exemplo de um fato ocorrido na Flórida em 1997. Dois
adolescentes e uma garota não tinham nada para fazer e resolveram
arrancar algumas placas de PARE dos cruzamentos. No dia seguinte, três
jovens transitavam por uma dessas avenidas desfalcadas de sinalização e,
sem saber que estavam cruzando com uma preferencial, bateram num
caminhão. Morreram. É isso que acontece. E aconteceu mais: os que
arrancaram as placas foram condenados, cada um, a 15 anos de prisão, e o
juiz ainda disse que eles deveriam agradecer, porque assassinos não
costumam pegar menos de 30 anos. A verdade é que somos, todos, homicidas
em potencial. Não é preciso sair pra rua com uma arma na mão para
colocar a vida dos outros em risco. Pequenas sandices como danificar
placas de trânsito ou fazer rachas em vias públicas também podem
provocar tragédias.
Segundo assunto: o adesivo que mostra uma mão
sem o dedo mínimo com a frase "Mais 4 não! Fora Lula", aludindo à
deficiência do presidente, que teve um dedo decepado na época em que
trabalhava como metalúrgico. A polêmica surgiu porque algumas pessoas
consideraram o adesivo preconceituoso e ilícito. Olha, ilícito me parece
que não é, mas que é de um tremendo mau gosto, nem se discute. Todos
têm o direito de externar sua opinião, de fazer propaganda de seu
partido ou contra o partido oponente, mas usar uma deficiência que nada
tem a ver com o caráter ou o currículo do candidato é preconceito, sim. O
fato de o Lula não ter um dos dedos da mão é absolutamente irrelevante
para o destino do país. Usar isso como uma "sacada" de marketing é fazer
piada tosca e grosseira, e creio que já basta de deselegâncias nesta
vida. Depois reclamamos quando crianças discriminam na escola os colegas
negros, gordos, mancos, gagos, sem dedo, sem braço, sem perna. Estão
seguindo exemplos, apenas isso.
Parar de pensar é um convite à meditação, não à estupidez.
Por: Martha Medeiros
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