Sublinho uma, sublinho duas
vezes, quase perfuro a página com a caneta, porque é isso aí: é sempre
tarde demais para nos salvar, já estamos aqui, a vida está em curso, já
nos apegamos aos nossos privadíssimos traumas, medos, fantasias, estamos
irremediavelmente condenados a ser quem somos. Podemos, claro,
amadurecer, ficar mais leves, lidar com nossas fraquezas com mais bom
humor, mas suprimi-las para sempre? Sem chance. No máximo, trocamos
alguns problemas por outros.
Quando a questão é sexo, então,
salvar-nos do quê? Só mesmo nos impedindo de nascer para evitar que
tenhamos contato com o que há de mais fabuloso e enigmático em nós:
nosso desejo. Uma vez nascidos, tarde demais. Estamos em pleno poder dos
nossos cinco sentidos, impossível evitar que nossos olhos vejam outros
corpos, nossos narizes sintam outros cheiros, nossas mãos toquem em
outras pessoas, e que sintamos o gosto delas, e ouçamos o que elas têm a
nos dizer. Tudo isso provoca um curto-circuito. Até pode-se exercer a
abstinência como escolha, mas nunca através de uma imposição externa, de
uma pregação moralista. Tentar nos manter afastados do sexo? Só se a
intenção for a de nos transformar em pervertidos.
Tarde demais, nascemos.
E
uma vez nascidos, viramos homens e mulheres que tentam extrair alegrias
de onde só brota dificuldade, que participam deste carnaval de
sensações fartamente oferecidas dia após dia: paixões e melancolias ao
nosso dispor, bastando estarmos predispostos à vida. Uma vez nascidos,
temos uma cara, um corpo e a nossa alma, principalmente a alma, nosso
DND espiritual, avesso a manipulações de qualquer espécie. Tentem, mas
vai ser difícil nos transformar em pedra, parede, concreto.
Podem
fazer nossa cabeça, mudar nossas ideias, nos arregimentar para o seu
partido. Influenciar, podem. Somos maleáveis. Mas arrancar de nós a
humanidade, proibir que tenhamos sono, fome e sede, declarar-nos
incapacitados para o amor, exigir que nunca mais sonhemos, que não
cultivemos nosso lado mais secreto e selvagem, impossível, só se não
existíssemos.
Tarde demais, nascemos.
Por: Martha Medeiros
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