segunda-feira, 4 de junho de 2012

O útil e o fútil

Um F a mais.
É o que inicialmente diferencia o fútil do útil.
Um, tão discriminado.
Outro, venerado dia a dia como um deus a quem entregamos nossas vidas.

No dicionário, útil é o que serve para alguma coisa.
Já o fútil é leviano, frívolo, vão, inútil.

E levamos a sério o pai dos burros.
Nem bem o sol levanta e já estamos a postos a serviço da utilidade.
Trabalhamos para comer, sobreviver. comprar coisas.
Opa: comprar o que é útil, claro.

Às lojas de roupinhas, sapatinhos e afins, vamos escondidos, na calada da noite, sentindo uma culpa inútil e amordaçada.
Para que o colar?
Para que mais um vestido?
De que serve um sapato cor-de-rosa se você já tem um vermelho?

E, enquanto o útil trabalha de sol a sol, o fútil catarola deitado em uma espreguiçadeira à beira da piscina de um hotel cinco-estrelas.
Vez por outra o útil limpa o suor e avista seu rival refestelado e com o melhor humor do mundo.
E volta à pauta do dia azedo e abominando o prazer.
Afinal para que serve o prazer?

Música, cinema, livros, estrelas, vinho, beijo na boca, pontos turísticos.
Para que serve tudo isso?
O valor do prazer mora justamente em seu desserviço.

A utilidade, não.
Ela é quantificável.
Cabe em gráficos de produtividade.
Já o fútil, ah, o fútil não tem preço.

Verdade seja dita: a utilidade morre de inveja da futilidade.
Volta e meia se sente usada, ao passo que a futilidade se regozija com sorrisos frívolos e gritinhos vãos.
Ah, como a utilidade queria para ela esses prazeres levianos...

Que conquistemos o nosso direito de ser fúteis.
Que estejamos longe de ser somente úteis.
Que alcancemos um dia a qualidade de ser desnecessariamente necessários.


Por Cris Guerra
Revista Gloss

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