Em dezembro próximo, serão completados 30 anos da morte da escritora Clarice Lispector, que entendia de subversões emocionais. Fui convidada a participar de um evento que a homenageia, em Porto Alegre, e em função disso andei relendo algumas de suas obras, e encontrei no conto “Amor”, do livro “Laços de família”, uma de minhas frases prediletas. Assim ela descreve o sentimento da personagem Ana: “Seu coração enchera-se com a pior vontade de viver.”
Ela é complexa, angustiante, subjetiva e intensa. Ela, “a pior vontade de viver”. A que não está disposta a negociar com a vontade dos outros.
No entanto, esta que foi chamada de a “pior” vontade pode ser também uma vontade genuína e inocente. É a vontade da criança que ainda levamos dentro, entranhada. É o desejo de açúcar, de traquinagem, de fazer algo escondido, de quebrar algumas regras, de imitar os adultos. A “pior” vontade é curiosa, quer observar pelo buraco da fechadura e depois, mais ousadamente, abrir a porta e entrar no quarto proibido. A “pior” vontade é a de não se enraizar, não assinar contrato de exclusividade, não firmar compromisso, não se render às vontades fixas, apenas às vontades momentâneas, porque as fixas correm o risco de deixar de serem vontade para se transformarem em vaidade – como se sabe, há sempre aqueles que se envaidecem da própria persistência.
A “pior”
vontade não quer ganhar medalha de honra ao mérito, não quer posar para
fotografias, não quer completar bodas de ouro nem ser jubilada. A
“pior” vontade não faz a menor questão de ser percebida, ela quer ser
realizada. É quando você sabe que não deveria, mas vai. Sabe que não
será fácil, mas enfrenta. Sabe que tomarão como agressão, mas arrisca.
Aqui, cabe lembrar: apenas se sentem agredidos aqueles que te invejam.
A
vontade oficial, a vontade santinha, a que não causa incômodo, é a
outra, a aprovada pela sociedade, a que não leva em conta o que vai no
seu íntimo, e sim a opinião pública. É a vontade que todos nós, de certa
forma, temos de mostrar para os outros que somos felizes, sem saber
que para conseguir isso é preciso, antes, ter a”pior” vontade, aquela
que faz você descobrir que ser feliz é ter consciência do efêmero, é
saber-se capaz de agarrar o instante, é lidar bem com o que não é
definitivo – ou seja, tudo.É com esta “pior” vontade de viver que você atrai os outros, que seu magnetismo cresce, que seu rosto rejuvenesce e que você fica mais interessante. É uma pena que nem todos tenham a sorte de deixar vir à tona esta que Clarice Lispector chamou de “a pior vontade de viver”, e que, secretamente, é a melhor.
Por: Martha Medeiros
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